DESAPARECIDOS
05-01-2006
Muita gente passou pela minha vida. Na vida nômade, errante, que vivi, muitos desapareceram para sempre sem deixar rastros. Só na lembrança do que representou para mim.
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Roland Grau, o pintor e estilista chileno que vivia em Copacabana, foi o mais importante dos personagens de minha juventude. Era culto, criativo, talentoso. Fez dezenas de ilustrações para os meus poemas e muitos retratos à óleo, em tinta nanquim e aquarela.
Os dois maiores, à óleo, que estavam em nossa casa da Tijuca/RJ, depois de minha viagem para a Venezuela, em 1966, foram levados para a casa de minha irmã Irecê, em Nova Iguaçu/Rio de Janeiro. Ela os empacotou e guardou em um armário. A umidade acabou com eles. Outros continuam nas paredes da Chácara Irecê e no apartamento de Maria da Graça Miranda da Silva, no bairro de Águas Claras, em Brasília. Aos poucos estão sendo localizados, escaneados e publicados em nossa página na Internet.
É difícil senão impossível dimensionar o papel que Roland representava em minha formação intelectual. Já era um homem maduro quando eu o conheci, no final da década de 50. Por suas mãos é que cheguei ao surrealismo na pintura, na literatura, assim também ao modernismo e aos movimentos de vanguarda europeus e norte-americanos.
Durante vários anos, foi a minha faculdade, pois eu era, então, autodidata. Lia muito, ia às galerias de arte, aos espetáculos, levado por ele, pelo Ziembinsky e por outros mecenas que abriam as portas para um jovem que não tinha recursos para frequentar aqueles ambientes e boemias. Como eu nunca fui de beber álcool, preferia as conferências, as reuniões, os espetáculos, as exposições mas às vezes eram inevitáveis as rodas de bar e as festas familiares.
Outra pessoa fundamental foi o Carlos Alberto, um argentino genial e iconoclasta. Radical. Um verdadeiro dadaísta. Anárquico.
Roland era muito mais velho do que eu. Carlos Alberto seria uns 8 ou 10 anos mais idoso quando eu tinha meus 19 anos de idade. Vivia de fazer decorações em apartamentos de madames e, não raras vezes, eu o ajudei a colar papel em paredes ou em pinturas de portas e janelas. E íamos a miúde para Petrópolis, de trem ou de ônibus, onde ele alugava um modesto apartamento. Nosso tema principal era sempre o teatro e a poesia de vanguarda. Ele publicava nossos textos nos diários da cidade e chegou a montar a Exposição Poegoespacial, no anexo do Museu Imperial, em 1961.
Perdi contato com Roland e com Carlos Alberto depois que me mudei para a Venezuela, para continuar meus estudos de Biblioteconomia e dar continuidade à minha carreira literária em um novo desafio: uma língua estrangeira.
Pouco provável que Roland ainda esteja vivo. Estaria hoje com quase 95 anos. Mas Carlos Alberto é provável que ainda viva no Rio de Janeiro, ou em algum outro lugar do planeta, nômade coma era seu estilo de vida. Apenas o conhecia com Carlos Alberto e era assim como ele publicava seus trabalhos na imprensa. Não lembro o sobrenome. Fica difícil buscá-lo na rede web, a última esperança na busca de desconhecidos que produzem e escrevem, como era o caso dele.
Há muitos outros desaparecidos em minha vida. É o caso de minha querida e companheira das andanças pelas noites de Buenos Aires — minha anti musa Cecília Vaquero, com quem vivi algum tempo em seu apartamento e em minha residência carioca. Tenho-a como desaparecida política e provável vítima da repressão militar na Argentina naqueles anos tenebrosos. Os apelos que lancei pela web não deram resultado ainda.
É uma terrível sensação de vazio diante de fotos, cartas e outros documentos dessas pessoas queridas. Uma tristeza enorme pelo desaparecimento, pela privação de suas presenças tão significativas. Amargura!
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