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CARPINEJAR

 

Fabrício Carpi Nejar é hoje um dos poetas e críticos jovens de maior reconhecimento em todo o país.  Vive em São Leopoldo, Rio Grande do Sul.

 

“... Carpinejar vem se afirmando na cena cultural brasileira em razão de um valor cada vez mais raro na literatura em geral e na poesia em particular: a experiência — entendida aqui como matéria bruta  que a escrita poética transfigura, sem todavia esquecer aquilo que pôs em movimento a “a máquina de trovar” (segundo a expressão de Antonio Machado). / Ao mesmo tempo, esse registro lírico dramatiza com angústia — mas também com boa dose de ironia — a impossibilidade de vivência, traduzindo assim nossa época de massacre da subjetividade”.  MANOEL DA COSTA PINTO 

Em colaboração com  ALFORJA- REVISTA DE POESÍA, publicada por nosso amigo e poeta José Angel Leyva. Texto selecionado originalmente por Floriano Martins, publicado no n. XIX, Ciudad de México, invierno 2001.

Visite: http://www.alforjapoesia.com/

 

O poeta CARPINEJAR oferecendo uma oficina de poesia durante a I BIENAL INTERNACIONAL DE POESIA DE BRASILIA, dia 3 a 7 de setembro de 2008 na Biblioteca Nacional.

 



TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL

 

O mundo aparece demasiado explicado.

Teu jeito calado indica esperança,

mas quem diz que não é remorso?

 

Sou fiel aos hábitos; tu, aos mistérios.

Não coincidimos nossa lealdade.

Suporto, sobrevives.

 

O que adianta transbordar

se não dás conta do mínimo?

O que adianta me retrair

se não percebo o invisível?

 

 

 

             *   *   *

 

Não ter sido compreendido

condenou-me a assumir verdades

que desconhecia, filhos que

não eram de minha boca,

compromissos que não quis ir.

 

Ao longo da fala,

abri correspondências alheias.

A ausência de clareza

me perturbou a viver de favor

em meu corpo.

 

 

        *   *   *

 

 

Não me inquieto

quando não recebo as respostas

das perguntas que não fiz.

Eu me conformei

em reservar alguma coisa

de ti para saber depois.

Um pouco de nosso amor

será póstumo.

É recomendável

não descobrir todos os segredos.

 

 

          *   *   *

 

 

Para a morte, sofre de um problema.

Não estou todo em um único lugar.

 

 

      *   *   *

 

Os dias no verão

são cadeiras

para fora da casa.

Armar o ar,

desempalhar

a luz e deslizar

na esponja noturna da grama.

 

Ponha esse sol de janeiro

em minha conta.

 

 

       *   *   *

 

Alguém dentro de mim

mente para me proteger.

Não sei quem tem razão

sobre meus desastres.

Se permaneci em excesso

e não varei a outra margem.

Se me deixei fora por muito tempo

e esqueci o endereço.

 

Quando estamos próximos de dizer

é que não estamos mais aqui.

 

 

         *   *   *

 

Não conto meus pesadelos ao acordar.

Não termino mais uma frase inteira.

 

O começo de uma conversa é difícil

Depois mais difícil se toma

quando ela aconteceu

sem começar.   

 

Extraídos de COMO NO CÉU; e, LIVRO DE VISITAS.  (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005).

 

 

De
Fabrício Carpinejar
Cinco Marias
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010     
128 p.   ISBN 978-85-286-1055-0

 

Saiu mais um livro do Carpinejar pela Bertand. Vale a pena conferir. Ele é sempre inovador, sua poesia flutua entre o coloquial e o reflexivo, é senhor de seu estilo. Reproduzimos um poema, para não ferir as regras, a título de promoção.

 

 

Minha parte feliz não era fiel.
Estou conspirando
sem me dar conta,
na conversa do trem, ao telefone,
no bar, escrevendo.
Num canto da rua, existe alguém sob suspeita.
Do outro, à espreita.
Sobram enganos para incinerar o que me cerca.

 

 

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De

UM TERNO DE PÁSSAROS AO SUL

Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 2008.

ISBN 978-85-286-1313-1

 

 

        

As rochas encontram

asas na espuma.

Nenhuma despedida recompensa

 

a fidelidade da casa.

Como tua memória devolverá

as ruas emprestadas

 

para atalhar a infância?

Qual o eclipse, o calendário,

que vai emborcar

 

a nostalgia do futuro?

Quem inventará o fogo

sem as feições do criador?

 

 

Volta ao pampa, pai,

estamos amor-tecidos

na água tensa

 

do charco.

Protege as têmporas

com a palma da mão esquerda

 

a luz noturna é traiçoeira.

Não nos serve

o encantamento da aurora.

 

Volta, a farinha

e a carne seca

esfriam na gamela.

 

 

Tua risada denuncia

o desespero.

As respostas vieram

 

antes das perguntas.

Sim, a cicatriz da alvorada

influencia a inclinação

 

dos galhos.

Sim, desatei a cabeleira da guitarra

e o bojo do instrumento

 

parecia a pupila

de um homicida.

Sim, o dia do regresso.

 

 

Obedecias unicamente

ao instinto de ressuscitar,

cintilando

 

uma enseada ao longe.

Traçavas com mistério

versículos e frases,

 

as cordas da embarcação

no interior do frasco.

Transparente do combate,

 

viril em sua fragilidade,

recolhido no exílio

de estar pleno de si.

 

 

           Tua respiração

nos escombros,

o pulso disciplinado,

 

afinado como um plano.

Levanta do fino trato

com os finados.

 

A chama engana sua altura

ao pavio que a sustenta.

Viajas como o olhar do regresso,

 

chegas com o olhar da despedida.

O dia recusa a inocência,

tem o gosto de sol nos cabelos.

 

                   *

 

O pão fica acorda apenas

um dia em nossa fome.

O pão e o fogo

 

são do mesmo trigo.

Volta a pampa, pai.

A sombra está presa

 

Ao pescoço.

O sangue anoitece.

Anoitece

 

debaixo da pele

para amanhecer

os músculos da terra.

 

                   *

 

A palavra é falível

posta em outra boca:

o horizonte deitou

 

o fuzil dos pássaros.

Volta , pai, que a fundura

não está nos passos,

 

a tapera dispersa

a caça e o paradeiro

das pegadas.

 

A queda atalha a subida,

o homem permanece

uma pronúncia inacabada.

 

 

 

CAPRINEJAR, FabricioBiografia de uma Árvore.  2ª. edição.  São Paulo: Escrituras, 2002.  194p.  ISBN 85-7531-041-0Capa e projeto gráfico: Ricardo Siqueira.  Col. Bibl. Antonio Miranda

 

III. Fome de Insetos

(fragmento)

 

AS MANIAS SÃO VISTAS COMO DEFEITOS.

Depois, traços da personalidade.

Com a separação, transformadas em virtudes.

 

Calcificado, o ouro não derrete mais.
A aliança já é um osso no dedo.

 

Ter se acostumado um com outro

não significa que avançamos.

 

Somos residências geminadas        

se correspondendo pelos muros.

 

 

 

 

Fabricio Carpinejar e Antonio Miranda no 1º Festival de Poesia de Goyaz, 23 ao 26 de março de 2006

 

 

CARPINEJAR, Fabricio. Amor à moda antiga. Caxias do Sul, RS: Belas-Letras, 2016.  112 p.  ilus (fotos do autor)  15x22 cm.  sobrecapa. ISBN 978-85-8174-286-1 “Fabricio Carpinejar” Ex. bibl. Antonio Miranda

 

Livro escrito em uma Olivetti Lettera 1982 , textos logo revisados á mão e incluídos no livro como originais, três deles reproduzidos a seguir, para dar um ideia do conteúdo da obra.




 

 

 

 

 

 

 

TEXTOS EN ESPAÑOL

Trad. de Martha Leñero y José Manuel Mateo 

 

Un trío de pájaros al sur

 (fragmento)

 

Ninguna herida

cortaba tus pesadillas.

Cuando a media vida te viste

 

por una selva oscura, me quedé

a conversar con tus camisas,

y me calé las boinas

 

que encendían tus cabellos.

Tenía siete anos exactos

y una Luna cómplice jugaba

 

carreras conmigo.

Me demoré entre la ropa

Alineada

 

como un ejército en revista,

para intentar

que al menos una prenda

 

delatara tu deserción.

Cuando a media vida te viste

por una selva oscura, me quedé

 

alimentando el acuario

de las corbatas.

Pedí privacidad a las polillas.

 

Vestí tu camisa,

y me ví copiando el ritmo

de sus pliegues,

 

la respiración copiosa,

de mi propio

y definitivo padre.

 

 

Segunda elegía

 

Ser íntegro cuesta caro.

Me dividí por no dividirme.

Atrás de la apariencia, hay una pizca de miseria,

es el gusto por las sobras.

 

Parto en expedición hacia las pruebas de que viví.

Excavo boletines, cartas, álbumes

—el gesto reaccionario de mi letra de gancho.

 

EI pasado tiene sentido si permanece en desorden.

La verdad organizada es una mentira.

 

El musgo envanece las reliquias. Los dedos retiran las telarañas,

y asisto al revuelo de insectos que se vieron atrapados.

Huyo de la claridad, resplandece el polvo.

El par de rodillas permanece inmóvil como una roca.

 

Reviso el testamento, alisando la textura

como un gramático de la seda.

Descubro mi herencia de tajo.

 

No tengo lo que ansiaba

y tropiezo con objetos desposeídos de lógica

que me encuentran antes de que los busque.

 

Mi vida cabe en una caja de zapatos.

 

 

Coleccionaba trozos de madera

 

Coleccionaba trozos de madera: figuras

adornadas con la punta menuda del cortaplumas.

Alá estaba una de las sobrevivientes, borrosa,

cerca de las medallas escolares

y de los tornillos llorosos de herrumbre.

 

Un autorretrato no sería tan fidedigno.

Era yo aquella grieta del piso roto, la costra y la podre.

 

Cuántas fueron las pequeñeces que no combinaron

con el conjunto y, a falta de armonía

se quedaron en el sótano de ]a infancia?

 

Y si faltó valor para vivir con ellas

faltó coraje para expulsadas definitivamente.

 

Somos el dolor de lo que herimos.

No aprendemos a desaprender.

No heredamos nada, ni la palabra heredamos.

 

El desván tiene vida propia

y conoce nuestros juegos.

Lo que rehusamos en la cena es hoy nuestro bocado.

 

Todo puede fermentar: la piel, los pasos, el olor del brazo.

Todo puede nacer sin el mérito del grito,

como un murmullo o el estallido de un abrazo.

 

Todo puede nacer, aunque sofocado.   

 

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Extraídos de

ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA

Org. Trad. de Xosé Lois García

 

 

Las rocas encuentran

alas en la espuma.

Ninguna despedida compensa

 

la fidelidad de la casa.

¿Cómo devolverá tu memoria

las calles prestadas

 

para interrumpir la infância?

¿Qué eclipse, o calendario,

va a mitigar

 

la nostalgia del futuro?

¿Quién inventará el fuego

sin el estilo del creador?

 

 

Vuelve a la Pampa, padre,

estamos amor-tecidos

en el agua tensa

 

del charco.

Protege sus sienes

con la palma de la mano izquierda,

 

la luz nocturna es traicionera.

No nos sirve

el remédio de la aurora.

 

Vuelve, la harina

y la carne seca

esfrían en la tinaja. 

 

 

Tu carcajada denuncia

la desesperación.

Las respuestas llegaron

 

antes que las preguntas.

Si, la cicatriz del Alba

influye en la inclinación

 

de las ramas.

Si, desate la cabellera de la guitarra

y el entorno del instrumento

 

parecia la pupila

de un homicida.

Si, el día del regreso.

 

 

Página ampliada e republicada em dezembro de 2007; ampliada e republicada em maio de 2014.

 

 


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