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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



LAURINDO RABELO


LAURINDO José da Silva RABELO nasceu no Rio de Janeiro (RJ), a 3 de julho de 1826. De origem humilde, paupérrimo, descendente de ciganos. Entrou para o Seminário de São José, recebendo ordens menores. Tentou a Escola Militar, que veio a deixar, por ter escrito sátiras contra o diretor. Matriculou-se na Escola de Medicina do Rio de Janeiro. Sem recursos, largou os estudos, passando pelo dissabor de ver louca a irmã, por lhe haver falecido 6 noivo. Recebeu a caridade de ser levado para a Bahia, onde continuou os estudos de Medicina e onde recebeu a notícia do falecimento da irmã e depois da mãe, ficando a família reduzida a um irmão, que veio a ser assassinado. Formado em Medicina, foi médico do Exército, seguindo para o Rio Grande do Sul. Regressando ao Rio de Janeiro, foi professor de Português, Geografia e História no curso anexo à Escola Militar. Foi apelidado de Poeta Lagartixa. Boêmio, orador, humorista, repentista. Faleceu no Rio de Janeiro, a 28 de setembro de 1864. Patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras. [Integrou a chamada segunda fase do romantismo brasileiro.]

Obras publicadas: Trovas, 1853; Poesias, 1867; Obras Poéticas, 1876; Obras Completas, 1946; Poesias Completas de Laurindo Rabelo, 1963. Deixou vários inéditos.

Fonte: VALADARES, Napoleão.  De Gregório a Drummond. Brasília: André Quicé Editor, 1999. 220 p. [Antologia] 

 

TEXTO EN ITALIANO

 

RABELO, Laurindo.  Poesias completas de... Coligidas e anotadas por Antenor Nascentes.   Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1963.  272 p   12x16,5 cm. 

LEANDRO E HERO

 

O facho de Helesponto apaga o dia,

Sem que aos olhos de Hero o sono traga,

Que dentro de sua alma não se apaga

O fogo com que o facho se acendia.

 

Aflita o seu Leandro ao mar pedia,

Que abrandando por ela, a prece afaga,

E traz-lhe o morto amante numa vaga

(Talvez vaga de amor, inda que fria).

 

Ao vê-lo pasma, e clama num transporte —

“Leandro!... és morto?! ... Que destino infando

Te conduz aos meus braços desta sorte?!

 

Morreste!... mas... (e às ondas se arrojando,

Assim termina já sorvendo a morte)

Hei de, mártir de amor, morrer te amando.”

 

 

 

SONETO V - À SRA. MARIETA LANDA

 

Disseste a nota amena d'alegria,

E, arrebatado então nesse momento

De um doce, divinal contentamento,

Eu senti que minh'alma aos céus subia.

 

Disseste a nota da melancolia,

Negra nuvem toldou-me o pensamento;

Senti que agudo espinho virulento

Do coração as fibras me rompia.

 

És anjo ou nume, tu que desta sorte

Trazes o peito humano arrebatado

Em sucessivo e rápido transporte?!

 

Anjo ou nume não és; mas, se te é dado

No canto dar a vida, ou dar a morte,

Tens nas mãos teu Porvir, teu bem, teu fado. A UM INFELIZ

 

 

 

SONETO III

 

Geme, geme, mortal infortunado,

É fado teu gemer continuamente:

Perante as leis do Fado és delinqüente,

Sempre tirano algoz terás no Fado.

 

Mas para não ser mais envenenado

O fel que essa alma bebe, e o mal que sente,

Não te iluda o falaz riso aparente

De um futuro de rosas coroado.

 

Só males o presente te afiança:

Encrustado de vermes charco imundo

Se te volve o passado na lembrança.

 

Busca, pois, o da morte ermo profundo:

Despedaça a grinalda da esperança:

Crava os olhos na campa, e deixa o mundo.

 

 

 

ADEUS AO MUNDO

 

I

Já do batel da vida

Sinto tomar-me o leme a mão da morte:

E perto avisto o porto

Imenso nebuloso, e sempre noite,

Chamado - Eternidade!

Como é tão belo o sol! Quantas grinaldas

Não tem de mais a aurora!!

Como requinta o brilho a luz dos astros!

Como são recendentes os aromas

Que se exalam das flores! Que harmonia

Não se desfruta no cantar das aves,

No embater do mar, e das cascatas,

No sussurrar dos límpidos ribeiros,

Na natureza inteira, quando os olhos

Do moribundo, quase extintos, bebem

Seus últimos encantos!

 

II

Quando eu guardava, ao menos na esperança,

Para o dia seguinte o sol de um dia,

De uma noite o luar para outras noites;

Quando durar contava mais que um prado,

Mais que o mar, que a cascata erguer meu canto,

E murmurá-lo num jardim de amores;

Quando julgava a natureza minha,

Desdenhava os seus dons: ei-la vingada:

Cedo de vermes rojarei ludíbrio,

E vida alardearão fracos arbustos

Sobre meu lar de morto! A noite, o dia,

O inverno, o verão, a primavera,

A aurora, a tarde, as nuvens, e as estrelas,

A rir-se passarão sobre meus ossos!

Não importa: não é perder o mundo

O que me azeda os pálidos instantes

Que conto por gemidos. Meu tormento,

Minha dor, é morrer longe da pátria,

Da mãe, e dos irmãos que tanto adoro.

 

III

Quando da pátria me ausentei, não tinha

Nada que lhes deixar, que lhes dissesse

O que eram eles dentro de minh'alma.

Mendigo, a quem cedi pequena esmola,

Deu-me quatro sementes de saudades;

Ao meu jardim doméstico levei-as,

Cavei, reguei a terra com meu pranto,

E plantei as saudades. Soluçando

Chamei ali os meus: "Aqui vos deixo

(Disse apontando à plantação) "em flores

"Minh'alma toda inteira; aqui vos deixo

"Um tesouro enterrado. Jóias, oiro,

"Riquezas, não, não tem, porém na terra

Estéril não será." Ondas de pranto

Afogaram-me a voz: houve silêncio;

Palpei de novo o chão; vi que de novo

Cavado estava! A terra se afundara,

E as sementes nadavam sobre lágrimas,

Que minha mãe e minha irmã choravam...

Replantei-as, orei, beijei a terra,

E parti... Trouxe d'alma só metade;

E o coração?... deixei-o num abraço.

 

IV

Certo estou de que a planta, já crescida,

Terá brotado flor. Se ao menos dado

Me fosse colher uma... ver a terra

Pelo pranto dos meus santificada!

Se uma dessas saudades enfeitar-me

Viesse a minha essa, ou meu sudário,

Ou, pela mão materna transplantada,

Encravar-me as raízes no sepulcro...

É tão pouco, meu Deus!!... Eu não vos peço

Soberbo mausoléu, estátua augusta

De túmulo de rei. Assaz desprezo

Esses gigantes de oiro

Com entranhas de pó. Mortalha escassa

De grosseiro burel, que bordem lágrimas;

Terra só quanto baste p'ra um cadáver,

E as minhas saudades, e entre elas

Uma cruz com os braços bem abertos,

Que peça a todos preces. Terra, terra

Perto dos meus e no terrão da pátria,

É só quanto suplico.

 

V

A morte é dura,

Porém longe da pátria é dupla a morte.

Desgraçado do mísero, que expira

Longe dos seus, que molha a língua, seca

Pelo fogo da febre, em caldo estranho;

Que vigílias de amor não tem consigo,

Nem palavras amigas que lhe adocem

O tédio dos remédios, nem um seio,

Um seio palpitante de cuidados

Onde descanse a lânguida cabeça!

Feliz, feliz aquele, a quem não cercam

Nesse momento acerbo indiferentes

Olhos sem pranto; que na mão gelada

Sente a macia destra d'amizade

Num aperto de dor prender-lhe a vida!

Feliz o que no arfar da ânsia extrema

De desvelada irmã piedoso lenço,

Úmido de saudades vem limpar-lhe

As frias bagas dos finais suores!

Feliz o que repete a extrema prece,

Ensinada por ela, e beijar pode

O lenho do Senhor nas mãos maternas!

Desgraçado de mim!... Talvez bem cedo

Longe de mãe, de irmãos, longe da pátria

Tenha de me finar... Ramo perdido

Do tronco que o gerou, e arremessado

Por mão de Gênio mau à plaga alheia,

Mirrarei esquecido! Os céus o querem,

Os Céus são imutáveis: aos decretos

Do Senhor curvarei a fronte humilde,

Como cristão que sou. Eternidade,

Recebe-me a teu bordo!... Adeus, ó mundo!

 

VI

Já sinto da geada dos sepulcros

O pavoroso frio enregelar-me...

A campa vejo aberta, e lá do fundo

Um esqueleto em pé vejo a acenar-me...

Entremos. Deve haver nestes lugares

Mudança grave na mundana sorte;

Quem sempre a morte achou no lar da vida

Deve a vida encontrar no lar da morte.

Vamos. Adeus, ó mãe, irmãos, e amigos!

Adeus, terra, adeus, mares, adeus, céus!...

Adeus, que vou viagem de finados...

Adeus... adeus... adeus!

Adeus, ó sol que, amigo iluminaste

Meu pobre berço com os raios teus...

Ilumina-me agora a sepultura: -

Adeus, meu sol, adeus!

Florezinhas, que quando era menino

Tanto servistes aos brinquedos meus,

Vegetai, vegetai-me sobre a campa: -

Adeus, flores, adeus!

Vós, cujo canto tanto me encantava,

Da madrugada alígeros orfeus,

Uma nênia cantai-me ao pôr da tarde:

Passarinhos, adeus!

Vamos. Adeus ó mãe, irmãos, e amigos!

Adeus, terra, adeus, mares, adeus, céus!...

Adeus: que vou viagem de finados!...

Adeus!... adeus!... adeus!

 

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Laurindo Rabelo

De
Laurindo Rabelo
POESIAS
São Paulo: Edições Cultura, 1944. 
195 p.

 

A UMA INCONSTANTE

 

SONETO II

 

                   É carpir, delirar, morrer por ela!

                                               BOCAGE.

 

De uma ingrata em troféu despedaçado

Meu coração devora amor cruento,

Trocando em fero e bárbaro tormento

Quantos prazeres concedeu-me o fado.

 

No seio d'alma, já dilacerado,

Negras fúrias do báratro apascento!

Filtra-me o delirante pensamento

De zelos negro fel envenenado.

 

Desprezo, ingratidão, fria esquivança

Da cruel por quem morro, em tal procela

Apagaram-me a estrela da esperança.

 

E eu (ao confessá-lo a dor me gela)

Humilhado a seus pés, minha vingança

Ê carpir, delirar, morrer por ela.

 

 

 

A UM INFELIZ

SONETO III

 

Geme, geme, mortal infortunado,

É fado teu gemer continuamente:

Perante as leis do Fado és delinquente,

Sempre tirano algoz terás no Fado.

 

Mas para não ser mais envenenado

O fel que essa alma bebe, e o mal que sente,

Não te iluda o falaz riso aparente

De um futuro de rosas coroado.

 

Só males o presente te afiança:

Encrustado de vermes charco imundo

Se te volve o passado na lembrança.

 

Busca, pois, o da morte ermo profundo:

Despedaça a grinalda da esperança:

Crava os olhos na campa, e deixa o mundo.

 

 

 

TEXTO EN ITALIANO

 

Extraído de

MIRAGLIA, TolentinoPiccola Antologia poetica brasiliana.  Versioni.  São Paulo: Livraria Nobel, 1955.  164 p.  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

A D D I O  AL MONDO

 

          Già sento, dei battello delia vita,
Scacciarmi, dal timone dalla morte,

          E vedo vicino ii porto
Immenso, nebbioso e sempre scuro

          Chiamato Eternità.
IL sole com'è bello ! Che ghirlande

          Non ha dippiù l’aurora !
Come splende la luce delle stelle !
Come olezzan gli aromi
Che esalano dai fiori !
Che armonia
Non si gode nel canto degli augelli,
Nei fragore dei mare e delle acque,
Nel  sussurro  dei  limpidi ruscelli,
Nella natura tutta, quando gli occhi
Del moribondo, quasi estinti, godono

          I suoi ultimi incanti.

          Povero dei misero che spira
Lungi dai suoi e l’arsa lingua bagna
Nella strania tazza data a caso,
Che non ha dell’amore la vigília,
Nè le parole amiche che addoiciscano
L'amaro dei rimedi nè un seno,
Un seno palpitante di premura,
Ove accostare possa il capo stanco

Ben felice chi non si vede accanto,
In quel momento acerbo, indifferenti
Occhi senza pianto; e chi si senta
La fredda mano nella stretta arnica,
Come per trattenere ancor la vita !
Felice chi al sopir dell’ansia estrema
Dell’assidua sorella, il fazzoletto,
Umido di ricordi, possa tergere
Le fredde gocce del final sudore !
Felice chi ripete estrema prece
Mormorata da lei e può baciare
Il sacro Legno dalla man materna.
Sventurato che sono ! Forse presto
Lontano della mamma e dai fratelli,
Dalla lontana pátria morirò !
Ramo spezzato dall’avito tronco,
Lanciato da un Genio in plaghe aliene,
Morrò dimenticato ! Il Ciel lo vuole !
E il Cielo è immutabile ai decreti
Del Signore ! Curverò l'umile fronte
Come buon Cristiano. Eternità
Ricevimi al tuo bordo. Addio, o mondo !
Andiamo. Addio mamma, addio fratelli,
Amici, terra, addio, mari ! Addio, cielo !
Addio, per l'ultimo viaggio . . .

Addio . . . Addio .. . Addio ...

 

 

 

Página ampliada em janeiro de 2016.

 



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