DIRCEU QUINTANILHA
Nasceu no Rio de Janeiro a 17 de julho de 1918, de mãe France e pai brasileiro (Bertha Aubertie e Raphael Quintanilha), iniciou bem cedos suas atividades literárias. Bacharelou-se em Ciências e Letras no Externato Pedro II, formando-se depois em Medicina. Foi diretor do Instituto de Pesquisas Educacionais _ INEP. Colaborador de revistas literárias, é autor de uma obra que, mesmo não sendo popular, é reconhecida pelos especialistas.
LÍRICA
Esta coragem lírica
vem de longe.
Vem do nada:
— Árvore desfolhada
árido solo.
Vem da irreversível seca
e da sede —
côdea mínima de pão
anti-cristão.
Este lirismo é alimento
e coragem
de mentir.
A NOITE
No exato momento do grito
janelas e portas
amedrontadas,
fecham-se —
na noite do grito.
Na noite interna dos trincos
paredes, petrechos,
móveis-sombra,
vestem-se de silêncio.
Homens-mulheres-família
encolhem-se como vermes:
— Estátuas
onde o sangue flui, o gelado —
em desamparo.
No exato momento do grito
noturno.
TRIBUTO I
Este imposto
que me cobram
em dobro será revertido.
Frio papel no projeto
com leitura
em praça medieval.
Preço de sobrevivência
onde nome,
sensibilidade,
nada valem.
Entano,
mal sabem
do antiqüíssimo imposto
já pago:
— Esse que a vida impõe
e saldamos em dobro
até morrer.
MISSAL TESTAMENTÁRIO – II
Deixar todos os retratos
bem guardados>
A história do passado
pesa demais
no repasse
dos flagrantes
antiqüíssimos.
Ademais,
nada mais resta fazer
com tudo isso.
HABITE=SE
Ser
árvore quieta.
Deixar
que pequenas coisas
nos abracem:
— Abraçá-las.
Ser
artesãos de um Universo:
— Fincar as cercas
de fronteiras invisíveis.
Proprietários, enfim,
daquilo que ninguém
pode sonhar por nós.
Página publicada em dezembro de 2008.
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