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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FABRIZIO MORELO


MORELO, FabrízioTediário.  Brasília: 2011.  60 p.  13x14 cm.  Edição do autor, impresso pela Sítio Gráfica e Editora.  Foto do autor na orelha, por Sérgio Amaral.  
Col. A.M. (EA)

 

légua longa

não faço
nunca fiz
a procura do inteiro
não desprezo o pedaço

se o que chega primeiro
é só morte ou cansaço
sempre resta em sobejo
pro defunto a cachaça
para o gado o bagaço

sobra um verso
amassado no maço
dos poemas que nunca fiz
que fala dos tortos canteiros
onde o tropeço é um passo
que foi de encontro à raiz
vida inteira
(agorinha)
não corro
não mato
porque a vida
no seu fino trato

a meu juízo
ou mero fato
por desaforo
por desacato
não vale a bala
nem paga a sola do sapato

de tão vadio, virei poeta
cheguei tardio
cria indireta
dos que tem frio
do que não presta
do canto vento
desse assobio
que vem da fresta

nem bem pacato
nem bem pateta
só tenho e trago
o que me afeta
a légua longa
esse caminho
que, de tão deserto e estreitinho,
só me atravessa
por ser sozinho

 

alice

alice me alarde
alice me alente
alice me aguarde
o tanto que aguente

 

o amor esquece

verto e choro sempre que insisto
e tenho tratado a morte
com uma falta de libido
que chega a soar indecente
quase esquisito
como o poema eleito
que barganhou pra ser escrito
mas na hora do aperto
tem o apelo da prece
e se lembrar
recito
já que o amor esquece
como é bonito no começo:
uma emoção, ou quanto apreço
uma amplidão
mas tanta loucura tem seu preço
paixão define quem padece
e toda alegria tem avesso

 

MORELO, Fabrizio.  Este.  Brasília, DF: Edição do Autor, 2013.  80 p. 14x20,5 cm.  Design, capa e ilustrações: Ribamar Fonseca.  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

         berro

        Não que eu não queira,
         mas porque não quero.
         Tem coisa que só é bem dita
         no berro.
         Meus mortos eu mesmo velo,
         seus corpos eu mesmo enterro.

         Sirvo café e cachaça.

         Ladainha, cumprimento
         e companhia,
         por ocasião, tolero.
         Mas não discurso.
         Se é pra me despedir não falo:
         bebo e berro
.

 

        Contramão

        Pouco se me dá
         que sentido havia.
         O tédio largo,
         a garrafa seca,
         a fumaça crespa,
         o último cigarro.

         Fiz tanta bobagem na vida.
         Dessas ordinárias,
         distantes,
         doridas,
         dopadas.

         Se fosse só pobreza,
         mas bem sou tão pobre.

         Sou é de outro barro,
         rico de outro cobre,
         livre da avareza
         que a riqueza encobre.

 

         isso mesmo
       
       
Ainda que seu seja isso mesmo,
         me preste ao desprezo,
         ao corrente, ao igual.

         Ainda que seja ordinária
         essa indumentária,
         esse farsa moral.

         Ainda que eu negue o cansaço,
         o nariz de palhaço,
         essa cara de pau.

         Ainda que ao fundo do poço
         me atirem sal grosso
         e toneladas de cal.

         Ainda que eu negue a canalha,
         guardo na genitália
         o venéreo, o venal.

         Se é dia de carne ou de osso,
         se resolvo ou só torço,
         dá no mesmo, é igual.

         O dia do meu recomeço,
         se virá, desconheço,
         se vier não faz mal.

 

        poema sem título

         de ontem pra hoje
         a diferença é tanta
         que nem cabe
         no que se descobre
         antes da janta
         quando ainda
         ninguém sabe
         se a fome
         só é fome
         antes que acabe.

 

         palíndromos

                para Renato Matos

         Escrever do mesmo jeito
         de trás pra frente
         é quase igual
         a diferente.

 

Página publicada em fevereiro de 2012; ampliada em novembro de 2016.


 

 

 
 
 
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