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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




São Vicente, SP (1963)

 

DA NIRHAM EROS
(pseudônimo de Antonio Miranda)


  

1966.   Às vésperas de minha viagem de exílio voluntário

para a Venezuela, minha sobrinha Maria da Graça Miranda

da Silva, ainda uma adolescente, fez um trabalho importante para minha viagem... 

 

Enquanto minha mãe arrumava minha mala e minha mochila para tomar o avião da FAB que me levaria a Quito, no Equador — de onde eu seguiria, por terra, para Caracas —, minha sobrinha virou copista e compilou, num grosso caderno espiralado, os meus poemas de juventude. Impossível viajar sem eles.

 

Ajudei a fazer a seleção e ela ia copiando com sua letra legível e sinuosa.

 

Inventário Poético de Da Nirham Eros, uma considerável parte do que eu escrevera dos 11 aos 25 anos de idade.



O autor aos 17 anos de idade, no Rio de Janeiro


Ela registrou os nomes, abreviaturas e pseudônimos e variantes onomásticos que eu usei no período:

                                                Ant. Miranda

                                                Antonio Miranda

                                                Antonio L. C. Miranda

                                                Eros Da Nirham

                                                Da Nirham Eros

                                                Daniram Eros

                                                da, nirham : eRos

                                                daenê

                                                da, n

                                                frauÉrika

                                                Alfred Penner 

Assim estavam assinados nos cadernos, em jornais e em revistas por onde registrei ou publiquei meus primeiros passos na arte poética, na fase das descobertas.

Para os efeitos do presente reinventário, Da Nirham Eros assume os textos que vão do final da década de 50 a meados de 1966, uma fase de experimentações de linguagem e forma. Com forte influência dos movimentos concretista e neoconcreto por um lado, e de muitos autores que eu lia por aqueles tempos: Pound, Mallarmé, Crével, Maiakovsky, Ginsberg, Gullar, João Cabral de Melo Neto, etc.

A intenção do presente registro é o de resgatar alguns daqueles textos escritos dos 17 aos 25 anos de idade, no Rio de Janeiro e em viagens.

No final da década de 50 do século passado popularizou-se o uso de minúsculas nos textos, abolindo-se as maiúsculas do início das frases e até mesmo dos nomes próprios. Tornou-se moda entre os intelectuais e mesmo na imprensa e até na correspondência. O Suplemento Dominical de Jornal do Brasil passou a ser o sdjb, embora continuasse a manter as maiúsculas nos nomes de seus editores e colaboradores (Reynaldo Jardim, Ferreira Gullar, Roberto Pontual, José Guilherme Merquior, Mário Faustino).

Eu adotei o pseudônimo de Eros Da Nirham, por sugestão do artista plástico chileno Roland Grau, a partir de 1958. Da Nirham devia ser uma espécie de metamorfose de Miranda. O Eros eu não sei de onde ele tirou, nem por quê. Mas adotei-o, apesar da popularidade da dançarina Eros Volusia, por ser um nome próprio para os dois gêneros.

À medida que fui radicalizando as minhas experiências poéticas, fui também transformando o nome: Da Nirham Eros pareceu-me mais eufônico.  Adotei da, nirham: eRos – um anti-nome – nos catálogos das exposições poegoespaciais que nós promovemos nos jardins do antigo Ministério da Educação e Cultura (hoje Palácio Capanema, no Rio de Janeiro) e no Anexo do Museu Imperial de Petrópolis e em textos que publicamos no SDJB e em outros cadernos literários da época. Nos trabalhos mais escultóricos (sic) assinava simplesmente da, n ou apenas dne.

O crítico Roberto Pontual, mais de uma década depois (em 1971), escreveu que “os poegoespacialistas”,  do qual Eros era um dos membros, estariam entre “os mais inventivos e radicais na criação de novas zonas de pesquisa apesar de hoje estarem encerrados em completo esquecimento”.  

Guardo ainda uma boa quantidade do material que produzimos naquele período, expostos atualmente nas paredes da Chácara Irecê (no Estado de Goiás), e em caixas. Mas a maior parte ficou com o Roberto Pontual, no Rio de Janeiro, quando parti para o exílio voluntário na Venezuela.

Meu amigo Célio César Paduani, de Belo Horizonte, ficou com uns originais que expusemos por lá, entre os quais um “não-objeto” do Ferreira Gullar (que me foi cedido com ciumes pelo autor...) e um “poegoespaço” de Da Nirham Eros executado em madeira, peça móvel, com pintura de automóvel.

Não sei por onde andam os arquivos do grande crítico de arte Roberto Pontual, um dos grandes teóricos do movimento neoconcretista, falecido prematuramente.

É nossa intenção reunir, organizar e conservar o material sobrevivente produzido por Da Nirham Eros e pelo Poegoespacialismo. Sem pretender atribuir-lhe alguma importância ou valor para a reconstrução daqueles tempos. Ainda que seja apenas por um capricho pessoal.  A digitalização de parte do vasto legado da juventude poder ser uma alternativa. Tanto os poemas quanto alguns textos mais teóricos que pretendemos reconstituir, restaurar e divulgar.

 

Da Nirham Eros pendurava telas em varaus, pintava muros, construía estruturas tridimensionais e cinéticas. A maioria das propostas, por falta de condições materiais, foi elaborada com materiais precários e provisórios, ou ficaram restritos às maquetes, projetos, sonhos... Inclusive o “Vatemago”, um libro-poema.



São textos de juventude, de busca, de experimento. Certamente que já revelavam alguns caminhos, alguns recursos técnicos que logo abandonaria enquanto outros subsistem e se transformam.

 

 Ah, decidi reassumir a personalidade de Da Nirham Eros a partir dos poemas visuais que criei no final de 2005 para homenagear os 50 anos do Manifesto da Poesia Concreta lançado pelos irmãos Campos, Décio Pignatari e seguidores. Eu subscrevi o manifesto sem assinar o documento. Minha adesão foi silenciosa mas efetiva.

 

 Antonio Miranda (3/1/2006)

  

 

Poema

 

são setecentas manhãs

paridas pela sucessão

na procissão

de mulheres de coxas de cimento armado

prostitutas abertas

às frustrações do sexo

 

manhãs cheirando a esperma

de noites copulosas, suorentas

homens mal casados

gigolôs e

fumarenta vertigem dos pileques

 

dentro dela

(seios murchos, dentes podres)

esqueço-me em sua vagina

sem amá-la

 

(1960)

 

Hoje eu reescreveria o último quarteto por parecer-me redundante: “dentro dela / em sua vagina”...  Eu diria: “esqueço-me dentro dela / (seios murchos, dentes podres) / sem amá-la”.

Usei o neologismo copulosas, que eu mantenho.

 

 

 poema

         

            não gosto

            de mim

            assim

            compenetrado

 

            gosto de estar

            rebelde, enevoado

            tresloucado

            em busca do

            não-sei-o-quê

 

                 (1960)

 

Era a época do existencialismo, dos beatniks, da juventude transviada, do rock´n´roll.  

 


aglomerou-se-me tantas as virtudes da paiSagem

um-como-estar um tempo abstrato e metafísico, expondo e

tateando linhaS e vozes pouco

sóbrias de ua multidão desértica

de nada me valeu ser o ser, nada significou quase tudo

e tudo quase nada tanto & sofro e canto

& amo e deSeSpEro

?que vale beleza sem o contemplar

 

 (17.5.60)

 

Eu fiz o serviço militar por aquela época... e quase viajei para o Egito para servir na faixa de Gaza, na época do conflito Israel – árabes. Sorte que veio o armistício e a paz. Lá estava meu amigo Alfred Penner (que existia mas cujo nome também usei para assinar alguns textos...) e, contemplando as fotos que ele mandava da fronteira, eu escrevi o seguinte texto:

 

amor viaja

a aventura

egito areias escaldantes

dunas, esfinge olhando esfinge

 

foi-se

é-me distante o azul-soslaio

ponte

sedentas paisagens inéditas

 

areia escorrega mãos indecisas

sol

sonho-realidade alfred

 

lembro pushkin:

foi viver no deserto... e era imenso o deserto

mas seu sonho era maior!

 

(18.5.60)


No monumento aos pracinhas mortos na Segunda Guerra Mundial, RJ (1962)

Aqui vai um poema mais erótico...

 

 

morenez elástica

corpo avolumando

em mão na possessão

estado frêmito

êxtase-debilidade

descontrole

origem dos complexos

(degradação e ascensão)

esparges seiva-vida

ceifa

 

princípio-fim da humanidade

 

(19.5.60)

 

Como já foi assinalado mais acima, nos anos sessenta não usávamos maiúsculas nem para grafar nomes próprios, nem para assinalar o nome de deus... a moda veio do sdjb – o suplemento dominical do jornal do brasil, que o reynaldo jardim e o ferreira gullar publicavam.

 

O poema seguinte saiu publicado no Diário de Petrópolis em 24/03/1961:

 

p

o

e

m

a

 

da, nirham: eRos 

 

                                                  luar pálido

                                                  luar flácido

                                                  azulíneo

                                                  auto-procura

                                                  desaponto

                                                  nenhum

                                                  é todo um

                                                  luar  sereno

                                                  amor   sirene

                                                  vazio   hora

                                                  tempo   vácuo

                                                  luar   ninguém

                                                  sofrer o reencontro

                                                  ideológico

                                                  idiossincrásico

                                                  sofrer o nada

 

Mural no interior do monumento aos pracinhas
(Segunda Guerra Mundial) no RJ. (1962)


Em seguida, outro poema na mesma linha de produção:

 

 

metamofose V

 

agora o campo:

à, bois, distância

e montículos, desde

os (pasto) estreitos

caminhos e o futuro

ruminar enquanto

— vegetateando, os

fungos e doninhas —

comeremos frutos

 

                                         o prado, cercanias

                                e o bosque a meus dedos

                        de colheita; na horta os tantos

                             verdes, no jardim flora multi

                                    diversa aos ímpetos de

                                          podar e o resvalo

                                     (moderato) do vento

 

disse(lhe)me as

palavras todas

escolhidas e breves

                                     do momento:      a

                                     simbiose e esta

                                     xifopagia          de

                                     improviso,         já

                                     às ramas,          a

                                     fotossíntese e a

                                     clorofila           da

 

                                   manhã: o dentifrício

                                    e aléia eucaliptos

 

ou a rede aproximando os corpos

e os frutos tantos por colher

 

(Itaguaí, RJ, 4.3.62)

 

Cabe ressaltar o artifício descritivo-pictórico do poema... Nos versos  “agora o campo:/ à, bois, distância / e montículos, desde / os (pasto) estreitos / caminhos e o futuro / ruminar enquanto”(...), e sucedâneos, havia já o esforço de simular os espaços e distanciamentos da paisagem. Bois intercalados entre o poeta e os montículos à distância... Itaguaí fica na orla sul do Estado do Rio de Janeiro, com muitos morros na paisagem verde.

 

Depois destes poemas eu nunca mais abandonei os travessões, os ponto-e-vírgulas, as frases intercaladas e as palavras cortadas num enjambement abusivo...


Foto com um amigo em Macaé, RJ.
Da Nirham é o da direita.

Viajei em seguida para a Argentina e apresentei o poema ao meu amigo Manuel Mujica Láinez (o Manucho) e ele ficou intrigado... e elogiou meu letrismo e o verso “resvalo / (moderato) do vento”...

                              

 

momento

 

    trad. de Carlos Alberto

 

lo veo

ausente en su diario

caminando líneas:

“de gaulle força

acôrdo com a argélia”

y las cejas toman la

mayor distancia de

los cílios, al

perímetro-inmersión

(vertiginosas, las

palabras impresas

le regalan el mundo

y su inquietud:

?la del hombre?

 

(Rio, 26.2.62. O original em português está desaparecido.)

 

Deixei de fora os poemas mais visuais e os que escrevi em Buenos Aires que deverão aparecer em capítulos independentes. Pretendi dar apenas uma amostra do que Da Nirham escrevia e experimentava. Os poemas escritos na longa viagem por todo o Brasil, pelas Guianas francesa e holandesa, sairá num capítulo próprio: Versos Itinerantes.

 

Fica por último um poeminha que tem a influência cabralina que em vez de renegar, deve ser motivo de orgulho. Afinal, o poeta-aprendiz segue os passos dos mestres, única forma de aprendizado possível...

 

 

O bonde muitas vezes

(excertos)

 

O bonde que espreita

as esquinas agora

deixa as palavras

de seu condutor?

 

Neste condutor de bonde

o que age é a calma

do que vence distância,

não o olhar de quem passeia.

 

(1961)

 

É óbvio que ainda trafegavam muitos bondes no centro da cidade do Rio de Janeiro.  Mas, ironicamente, apesar dos bondes, éramos tão modernos!

 

* * * * * *

Qual a razão deste inventário?

 

Sempre me vi como um personagem que eu mesmo ia moldando e desconstruindo. Nos textos, nas relações humanas, nas fotografias. Algumas impublicáveis... Mas nunca fui radical ao ponto de mutilar-me, de partir para uma body sculpture, para tatuagens e piercings (sem nenhum problema, porém, com que o faz). No meu caso sempre tive uma postura mais teatral, mais interior. Para fora e para dentro. O corpo espelhando personalidades diferentes e nenhuma em particular ou de forma permanente. Até porque sempre retornava à rotina, a uma figura standard, numa época tão estigmatizada pelos preconceitos.

 

Louvo sempre o jovem que resistia àqueles tempos pois, sem nenhum saudosismo, nunca os veria como “anos dourados” ou “melhores”. Eram de lata. Dourados, sim, por uma imaginação despistadora.

 

Não foi o genial Walt Whitman – que eu já lia com fervor, na juventude – quem escreveu o “Canto a mim mesmo”? Por que não posso, então, voltado para os cenários vividos, fazer o culto do “poeta enquanto jovem”, mesmo reconhecendo suas limitações?!

 

 

Manuscrito de um poema de Eros, em 1958, aos 17 anos, no Rio de Janeiro.

 

 

Gravura do artista plástico chileno Roland Grau, retratando Eros Da Nirham (pseudônimo de Antonio Miranda, Rio de Janeiro, 1959)

 

 

 

A GARRAFA QUE ENGRAVIDA

 

O texto a seguir foi escrito no final da década de 1950, em Petrópolis, RJ, no apartamento minúsculo de meu parceiro no Movimento Egoerista, quando publicávamos poemas nos jornais da cidade e promovíamos exposições no Museu Imperial. Lá no apartamento apareceu uma garrafa enorme. Tão grande que ocupava um espaço considerável no centro da sala, como ornamento. Ficava olhando para aquilo, fascinado. Veio o texto a seguir… no estilo da época, tudo em minúsculas, em texto datilografado:

 

aqui a garrafa que engravida o espaço com o bojo: o
abraço, superficial e estreito, não abarca o seu todo
(fronteira que é de outro espaço medido)

a face que nos apresenta não é tudo: engorgita a vi
são com um volume absurdo, retendo a geografia do
nada: da ausência que é tudo

mas a garrafa não é somente um limite ente espaço
e espaço e não é mais que isso

há a garrafa material que se perde nos limites de sua
utilidade e aquela que se atribui o enclausura
mento de gênios e fantasias.  a minha vem depois,
quando já não lhe encontro encerrados poderes e não
a gosto nos domínios do imediato: uma garrafa garrafa

                                                      egoerismo

 

(Brasília, 3 de janeiro de 2006, página ampliada em novembro de 2016)

 

 




 

 

 
 
 
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